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Caçar pauta também é pauta?

 Escrever, muitas vezes, é uma missão árdua para os chamados formadores de opinião. Na lousa branca, a esperada frase “produzam uma matéria” irrita e contraria os futuros jornalistas. Contraditoriamente, os alunos do sexto período de jornalismo entreolham-se desestimulados com a tarefa. Sob uma visão mais romântica, nem parece que escolheram como ganha pão escrever, escrever e escrever para o resto de suas vidas. A parte mais difícil ainda está por vir: decidir a pauta. Sobre o que vou escrever? Como saber o que interessa ao leitor? Todos os assuntos parecem já ter sido explorados por alguém e o medo de cair na mesmice e repetição apavora. A dúvida impulsiona alguns a procurar o novo, o inusitado. A tarefa de olhar as mesmas coisas de um ângulo diferente é um desafio para os que querem encontrar o esconderijo das particularidades.

Cinco alunos estão no pátio e pensam na possibilidade de fundar o Sindicato dos Sem Pauta. Aos mais acomodados, vale procurar alguma matéria já produzida em outra disciplina, fazer alguns ajustes e adaptá-la. Aos mais audaciosos o que conta é encontrar algo peculiar na instituição, que ainda não foi abordado. Fulano sugere:

      Vou para a sala ver se encontro uma matéria já feita que dê para utilizar.

      Eu prefiro dar uma olhada por aí, deve ter algo de interessante – discorda Sicrano.

As idéias vão surgindo a partir das situações mais absurdas: subir na torre da igreja e ver o universo acadêmico de outra forma, com os olhos de quem quer chegar perto de Deus. Estar dentro da torre que, muitas vezes, só é notada pelos estudantes quando procuram ansiosamente o relógio. A porta de acesso está trancada e impossibilita a entrada. Quem sabe subir no teto... Não o da igreja, que é muito alto. O telhado da faculdade já está de bom tamanho. Jornalista que é jornalista também pode fazer esse tipo de loucura. A escada que dá caminho ao telhado fica próxima à sala de apoio aos pais e estudantes do ensino médio. O empenho é grande, já que o acesso é proibido e difícil. A missão é impedida pelo medo de infringir as regras da instituição.

De repente, visitar algo de diferente, como a sala de Anatomia. No entanto, nada de fenomenal. Apenas alguns bonecos, fetos, crânios e objetos que indicam as partes do corpo. Nada que renda uma matéria, no mínimo, satisfatória. A busca continua. Desta vez os orelhões não escaparam. Haveria alguma relação entre os números de cada um deles? São quatro aparelhos no Ielusc. A somatória dos números aparentemente não tem relação alguma: 19, 21, 28 e 30 e mais uma idéia vai por água abaixo. O estacionamento também poderia ser tema de alguma matéria, já que é um assunto polêmico, mas que já foi abordado várias vezes no jornais-laboratório. Poderia ainda existir uma relação entre a placa dos carros ou então, no modo como estão estacionados? O trabalho demandaria muito tempo para se chegar a alguma conclusão.

No bloco A existem 24 janelas. Mesmo número de pilares na frente da faculdade.

      Acho que é só coincidência – afirma o porteiro Neri Pereira, 46 anos.

      Eu acredito que não exista relação, mas quem sabe? - questiona o estudante Juliano Nunes, 21 anos.

Será que existe alguma relação entre as coisas? Isso pode ser verdade ou não, no entanto, tudo possui suas especificidades e pode ser o gancho para uma boa pauta, desde que o jornalista consiga identificar o que há de incomum em cada uma dessas situações.



Escrito por Carla Cabral e Silva às 09h21
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